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Francisco x Trump

postado em 23 de fev de 2017 07:31 por Gisele Mello

Francisco x Trump: o ódio de cada um usado como política de Estado -e a epidemia atual

Mauro Lopes - Publicado em 19 de fevereiro de 2017 – Outras Palavras

 

Cristãos católicos escutaram nas missas do 7º Domingo do Tempo Comum (19) um trecho do Evangelho de Mateus (Mt 5,38-48) ainda no contexto do longo Sermão da Montanha, reunião de ensinamentos de Jesus no formato de um único discurso, que o evangelista completaria com discursos menores e que foi apresentado em quatro domingos consecutivos. Como um elenco de ditos, os dez versículos permitem diversas abordagens. Escolhi uma em particular: o tema do ódio em Jesus, à luz da psicanálise, como política de Estado e no âmbito das relações sociais; os impasses e caminhos propostos, especialmente, nos dias de hoje, pelo Papa Francisco e pelo conservadorismo em geral e católico em particular.

Três versículos do texto são amplamente conhecidos: aquele no qual Jesus faz a crítica  do preceito conhecido como Lei de Talião, “olho por olho, dente por dente” (v.38-39), expresso em três dos cinco livros da Torá (os cinco primeiros livros da Bíblia Hebraica, o Pentateuco); a proposta de oferta da outra face diante da agressão (v. 39); e a recomendação expressa de amar os inimigos (v. 44).

Para Jesus, o ódio nasce e é alimentado por um processo que vincula o indivíduo, seu contexto familiar e a estrutura da sociedade. No domingo anterior, o tema nas missas havia sido a necessidade de indagar e entender onde nasce o desejo de morte (v.21-22); compreender a razão de nossos desejos e sentimentos contraditórios em relação àqueles que nos são mais próximos, como os irmãos –e, primordialmente, pai e mãe (v. 23-24); ou o emaranhado emocional que envolve a vida dos casais e torna tão dramático o tema da fidelidade, como se vê hoje pela proliferação dos aplicativos de namoro e encontros e a busca de relações “virtuais” à margem dos casamentos (v. 27-28) –leia aqui.  Neste, o foco desloca-se para a instrumentalização do ódio pelos poderes (a Lei de Talião) e a necessidade de uma resposta da pessoa que negue tal caminho de dominação.

Freud, ao fundar a psicanálise, constatou séculos depois que o ódio nasce como par do amor ou ainda antes dele. Todos os bebês odeiam o desprazer que sobrevém com a fome, com o frio ou a dor de uma assadura e mais tarde, já crianças, endereçam este sentimento àquele que lhe toma algo que consideram seu direito legítimo: o acesso ilimitado à mãe. Esta mobilização  em relação à figura paterna é a origem do ódio ao outro que a pessoa entende  como usurpador de seu direito.

O outro é visto pela criança como ameaçador e usurpador e torna-se alvo do ódio –este é o percurso que vamos reter aqui. Com o tempo, há uma ampliação deste alvo para todo aquele que se configura como ameaça e usurpação. Ao mesmo tempo, a criança tende a construir códigos de pertença no processo de socialização no qual, muito lentamente há uma aliança com aqueles que se lhe aparecem como assemelhados (a família, o clã) em oposição aos “de fora” e, com o tempo, esta codificação amplia-se em função dos agrupamentos sociais, desde colegas de escola, grupos de amigos, corporações até classe social. Estes somos “nós” contra todos os que estão fora deste círculo e que representam uma ameaça, potenciais ou reais usurpadores do que a pessoa enxerga como seus direitos inalienáveis.

Todo outro é considerado ameaça e torna-se alvo do ódio/medo. Isso explica porque no universo dos ricos e das classes médias é disseminada a raiva aos pobres: eles são o outro que quer tomar o que “é nosso”, pedindo deitado na calçada ou organizados em mobilizações e protestos. Por isso também o ódio aos refugiados que invadem o “meu/nosso” espaço para tomar “nossos” empregos, recursos do Estado que pertencem… Não importa que este outro seja, em realidade, alguém frágil, desvalido, necessitado de apoio –ele é sempre ameaçador.

Um breve parêntese: dentro dos agrupamentos como a família, clã, corporação, classe social nos quais se estabelecem as cumplicidades contra o “de fora” há muita competitividade, inveja, raiva pois, afinal, todo aquele que não sou EU é OUTRO. É o que vemos nas famílias, nas associações de classe, nos partidos, igrejas e outras instituições, onde predomina um ambiente de fofoca e rixa pela proeminência e pela melhor fatia do bolo, mesmo quando a liderança maior é inconteste. Porém, quando o outro externo ao grupo aparece como ameaça ou quando há um projeto que possa significar benefícios aos seus membros, todos se unem no ódio comum, mesmo em meio ao torvelinho de fofocas e conspirações. Os donos do poder utilizaram esta condição do ser humano como ferramenta do poder em toda a história, em todos os regimes políticos –contemporaneamente, tanto o capitalismo como o socialismo de Estado lançaram mão desta construção do outro como inimigo para construir hegemonias, consensos, e, no limite, movimentos terror.

O capitalismo potencializou ao máximo tal processo durante o neoliberalismo e ainda mais agora, numa fase em que ele está sendo superado por um turbocapitalismo voraz, representado pela ascensão de Donald Trump e da extrema-direita. É da própria essência do sistema capitalista a mobilização do ódio ao outro, pois ele se rege por um suposto “direito à primazia”: sim, você pode ser primeiro, ou mais precisamente, você tem que ser o primeiro, ou será um derrotado, um fracassado; o indivíduo tem direito a tomar tudo para si, tudo é objeto a ser arrematado e lhe pertencer de direito, dinheiro, poder, pessoas, carros, aviões, tudo está aí para ser apropriado porque na verdade é seu direito arrematar. Para isso, você deve derrotar aquele que lhe ameace a conquista destes direitos. Todo o ódio infantil é potencializado nas relações, econômicas, sociais, políticas e culturais na esfera do capitalismo e, neste início de século, de maneira exponencial, com a epidemia verificada nas redes sociais.

 

O Estado é concebido como ferramenta de garantia de que tais direitos serão assegurados e reproduzidos aos detentores do capital. Sob a capa da democracia, o sistema é calculado para prover tal segurança aos ricos e tornar o outro (os pobres despossuídos) como o grande inimigo. Noam Chomsky demonstrou como este foi um dos motores –talvez o principal- da construção daquela que se tornou referência de democracia e vitrine do capitalismo no século XX, os Estados Unidos. Ele encontrou algo revelador nas atas dos debates que levaram ao texto da Constituição daquele país, em vigor desde 1789: as intervenções de um dos federalistas, os “pais” da democracia norte-americana, James Madison. O que observou ele nas discussões prévias à elaboração do texto: “se na Inglaterra as eleições ‘fossem abertas a todas as classes de indivíduos, a riqueza dos proprietários de terras correria perigo. Cedo viria uma lei de reforma agrária’, concedendo terras aos que não a possuem.” Desta constatação surgiu uma conclusão que pareceu óbvia aos federalistas: “O sistema constitucional deve ser concebido de modo a evitar esse tipo de injustiça e ‘assegurar os interesses permanentes do país’, que são os direitos de propriedade. Há, dentre os estudiosos de Madison, um consenso de que ‘a Constituição foi um documento intrinsecamente aristocrático, concebido para conter as tendências democráticas da época’, conferindo poder aos ‘melhores’ e excluindo os que não eram ricos, bem-nascidos ou proeminentes no exercício do poder político (Lance Banning). A responsabilidade primeira do governo “é proteger a minoria opulenta da maioria”, declarou Madison. Esse tem sido o princípio orientador do sistema democrático, desde suas origens até os dias de hoje”.[1]

No capitalismo, o que importa mesmo é proteger os ricos dos pobres que lhes ameaçam o direito à propriedade de tudo.

Hoje vivemos o drama brutal dos refugiados que o Papa Francisco tem denunciado constantemente como a maior emergência da humanidade neste momento. Trump, os governos em geral e, na Igreja, os católicos conservadores, tratam estas milhões de pessoas como usurpadoras, homens, mulheres e até crianças que colocam todo o sistema em risco. Parece-nos, numa civilização que renunciou à história, que vivemos este drama pela primeira vez. Mas não é verdade: o tema dos refugiados acompanha a humanidade desde sempre. E foi exatamente no estudo reflexivo sobre eles que Hanna Arendt observou que sobre os refugiados despejou-se o medo-ódio no pós II Guerra, tal como vemos hoje. Num livro publicado em 1951, mas escrito na segunda metade de década anterior, quase imediatamente após o fim da guerra, em 1945, ela demonstrou como o tratamento dispensado aos refugiados decretou o fim do conceito de direitos humanos na civilização. Alguns humanos têm direitos –aos outros, os mais frágeis, ele é negado, pois é preciso defender os primeiros destes pobres que os ameaçam.

Escreveu Arendt, num trecho de seu livro sobre o qual recentemente lançou luz o filósofo Giorgio Agamben[2]: “Nenhum paradoxo da política contemporânea é tão dolorosamente irônico como a discrepância entre os esforços de idealistas bem-intencionados, que persistiam teimosamente em considerar ‘inalienáveis’ os direitos desfrutados pelos cidadãos dos países civilizados, e a situação de seres humanos sem direito algum. Essa situação deteriorou-se, até que o campo de internamento — que, antes da Segunda Guerra Mundial, era exceção e não regra para os grupos apátridas — tornou-se uma solução de rotina para o problema domiciliar dos ‘deslocados de guerra’.”[3]

Diante do “perigo” dos refugiados, liquidou-se no pós-guerra e liquida-se hoje com a farsa de um regime que supostamente ergueu-se sobre o lema da liberdade, igualdade, fraternidade: “O conceito de direitos humanos, baseado na suposta existência de um ser humano em si, desmoronou no mesmo instante em que aqueles que diziam acreditar nele se confrontaram pela primeira vez com seres que haviam realmente perdido todas as outras qualidades e relações específicas — exceto que ainda eram humanos. O mundo não viu nada de sagrado na abstrata nudez de ser unicamente humano.”[4]

 

Hoje, à negação dos direitos humanos do outro visto como inimigo corresponde ao fim do conceito tradicional de democracia. Vivemos, na expressão de Agamben, num estado de exceção permanente, que se espraia por todo o planeta, numa verdadeira guerra civil “que permite a eliminação física não só dos adversários políticos, mas também de categorias inteiras de cidadãos que, por qualquer razão, pareçam não integráveis ao sistema político”, numa equação segundo a qual um “estado de emergência permanente (ainda que, eventualmente, não declarado no sentido técnico) tornou-se uma das praticas essenciais dos Estados contemporâneos, inclusive dos chamados democráticos”.[5]

Trata-se de um estado sem freios e sem horizonte de superação, pois o capitalismo não existe sem a produção constante e em massa desse outro explorado, empobrecido, destituído, refugiado, morador de rua, em muitos casos subsistindo no sistema produtivo em condições análogas à de escravo. Sem estes escravos não há reprodução do capitalismo. Pode parecer um paradoxo, mas o sistema precisa desse outro para sustentar o capitalismo e, simultaneamente perpetuar o ódio. Esta necessidade não elide, entretanto, o fato de que, diante de seus direitos inalienáveis, os donos do sistema outorgam-se, de maneira cada dia mais aberta, o direito a definir quais destes inimigos (os pobres) efetivamente têm direito à vida, como observou Agamben. Isso explica a postura que oscila da indiferença ao apoio declarados dos ricos e largas fatias da pequena burguesia às mortes dos que consideram terem uma “vida indigna de ser vivida”: basta ver como a “opinião pública” mundial encara os refugiados e migrantes, especialmente nos EUA e Europa, a indiferença ao massacre dos presos na virada de 2016-17 no Brasil e o apoio mórbido às mortes de jovens e até crianças nas periferias que são expressados abertamente nas redes sociais, sob a lógica da frase de que “bandido bom é bandido morto”. No final de janeiro, Augusto Bezerra, um padre vinculado aos movimentos carismáticos/rigoristas apresentou em sua página no Facebook o “decreto do ódio” de maneira exemplar; escreveu ele que “o direito de ser feliz passa pelo direito de ser humano, e não animal”. A agenda do turbocapitalismo e seus agentes hoje é ampliar cada vez mais o espectro dos que devem ser considerados “bandidos” e “animais”: a esses tudo é negado, do direito à felicidade à vida.

 

Pode parecer um exagero de alguém que se levanta contra o capitalismo mas a expressão “vida indigna de ser vivida” existe de fato, como instrumentum laboris do sistema. Formulado pelo jurista alemão Karl Binding na década de 1920, foi a base conceitual do programa de eutanásia dos nazistas: “O conceito de ‘vida indigna de ser vivida’ é, para Binding, essencial, porque lhe permite encontrar uma resposta ao quesito jurídico que pretende colocar: ‘a impunidade do aniquilamento da vida deve permanecer limitada, como o é no direito atual (feita para o estado de necessidade), ao suicídio, ou de fato deve ser estendida a morte de terceiros?’ A solução do problema depende na verdade, segundo Binding, da resposta que se dê à pergunta: ‘existem vidas humanas que perderam a tal ponto a qualidade de bem jurídico, que a sua continuidade, tanto para o portador da vida como para a sociedade, perdeu permanentemente todo o valor?”[6]

Como observou Agamben, o fato de a expressão “vida indigna de ser vivida” ter surgido no contexto da discussão sobre a eutanásia, a questão é que ela está posta, e não como um conceito ético, mas como um conceito político que confere legalidade e legitimidade aos desejos de morte contra o outro e, aos que controlam o Estado, sob a égide da democracia burguesa, direito sobre a vida de fatias cada vez mais amplas da população.

Do lado de lá do muro, o outro: inimigo a ser abatido. O Papa versus a aliança entre Trump e alguns cardeais

Cruamente: o eixo que mobiliza o turbocapitalismo neste início de século é a mobilização do ódio. Tal lógica assumiu a liderança e o protagonismo no turbocapitalismo, cujo símbolo maior é a eleição de Donald Trump. Todo o discurso atual do capitalismo está eletrizado por este discurso e seus subprodutos: a discriminação, o sofrimento e a morte.

Há outro projeto que se antagoniza ao de Trump e do capitalismo, encabeçado pelo Papa Francisco, a partir dos ensinamentos de Jesus –expresso de maneira gritante no Evangelho dominical dos católicos. Vale a pena ler um trecho do artigo Casa Branca, barrete vermelho. A referência de Stephen Bannon no Vaticano de John Gehring, diretor da organização católica Faith in Public Life, e ex-assessor da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA. Ele relata a intimidade entre os “contras” católicos, especialmente seu líder, o cardeal Raymond Burke, e o principal ideólogo de Trump, o católico de extrema direita Stephen Bannon, fundador do site Breitbart News e agora estrategista chefe e assessor sênior do presidente americano e demonstra que os “temas religiosos” estão claramente subordinados aos alinhamentos de cada qual aos dois eixos que polarizam o planeta:

Burke é um restauracionista que sente falta dos dias anteriores ao Concílio Vaticano II, com uma miríade de males modernistas existindo de modo seguro no lado de fora das barricadas de fortaleza da Igreja. Nessa sua visão nostálgica de um cristianismo triunfalista, as duras verdades da ortodoxia estão intactas e não foram contaminadas pela cultura geral ou por visões concorrentes de dentro da Igreja. (…) A crítica pública frequente de Burke à visão pastoral do Papa Francisco – a insistência do pontífice em construir uma ‘cultura do encontro’ e não alimentar a guerra cultural – transformou Burke no líder de fato de um grupo opositor a Francisco cada vez mais atuante. A islamofobia delicadamente velada do cardeal é um embaraço à Igreja e um insulto a milhões de muçulmanos pacíficos. Burke alega que a chamada ‘agenda islâmica’ não mudou ‘desde os tempos em que os nossos ancestrais tiveram de lutar para salvar o cristianismo’. A sua visão distorcida do Islã como, antes de tudo, uma ideologia política em lugar de uma religião complexa e multifacetada é, evidentemente, compartilhada por Bannon. Não nos deve surpreender que Burke tenha sido motivo de preocupação ao se encontrar com Matteo Salvini, nacionalista italiano de direita que apoia Trump e profere elogios a Mussolini.

O ódio não é uma invenção dos que ao longo da história controlaram e controlam o Estado. Há também ódio no polo oposto do espectro econômico-social. Os pobres odeiam aqueles que os oprimem e lhes arrancam a pele (os ricos) ou, quando seduzidos pelo discurso ideológico do sistema, odeiam pobres iguais a eles, vistos como o outro ameaçador -refugiados, migrantes, sem teto, sem terra… É uma inundação de ódio. É sobre tal inundação, existente na sociedade judaica de sua época, que Jesus advertia, propondo uma trajetória distinta: em vez de ódio, amor, até mesmo aos inimigos. Mas como isso é possível? Há um caminho de conversão pessoal que cabe a cada qual decidir trilhar, custoso e cheio de senões, curvas, interrogações, posto que somos todos feitos do mesmo barro. Nos Evangelhos, Jesus indica algo para além da conversão pessoal, pois sabia que sem a liquidação das estruturas incentivadoras do ódio ao outro, a mudança, mesmo individual, é rara. Por isso ele propunha uma nova Lei, o Reino (o qual deve ser buscado comunitariamente por aqueles que aderem a seu projeto), outra forma de organização das relações econômicas e sociais (a escolha de Deus em vez do dinheiro, partilha em vez de acumulação, estruturas dialógicas em vez de hierárquicas, verticais).

São duas concepções nascidas a partir de nossos traumas: a de Jesus e aquela arquitetada pelos sistemas de dominação ao longo da história. O Papa alinha-se à lógica de Jesus, denuncia o capitalismo que semeia ódio e morte, condena todas as guerras, clama pelo acolhimento aos refugiados, insurge-se contra a exclusão e a afronta à dignidade humana, escandaliza-se com a banalização do desejo de morte do outro. “Estamos nos acostumando a insultar como dizer ‘bom dia’”, afirmou Francisco poucos dias atrás (aqui).

Mas, afinal, qual é o projeto de sociedade, que futuro pode ser desenhado para a superação de um sistema que se alimenta da disseminação do ódio?

Séculos depois de Jesus, Marx e Engels colocaram de pé um projeto capaz de ultrapassar a arquitetura potencializadora do ódio: o fim do regime da exploração/expropriação de quase todos por uns poucos (atualmente, 1% da humanidade).  No Manifesto Comunista, eles apontaram a necessidade de suprimir da sociedade a figura do burguês[7], do rico que vive de explorar os demais seres humanos e o planeta, para acumular indefinidamente. Enquanto o capitalismo precisa manter milhões, bilhões de pessoas à míngua para que 1% concentre todo o dinheiro e poder do planeta, no socialismo, com o fim deste agrupamento deveria inaugurar-se um novo tempo, em que o estímulo ao ódio fosse substituído pelo incentivo às relações amorosas -não era, ao contrário do que alardeia a propaganda capitalista, uma proposta de eliminação física de pessoas, mas de um agente econômico, social, político e cultural pela mudança no padrão de produção e apropriação. O fracasso da experiência do socialismo de Estado no Leste Europeu com todo o seu preço em eliminação das liberdades, aos direitos humanos e à vida em autonomia e paz criou um trauma brutal na humanidade e ajudou a pavimentar a estrada para o neoliberalismo.

E agora? Na verdade, ninguém ainda sabe muito bem.

Há que germinar uma alternativa. O Papa e os principais líderes da primavera da Igreja Católica têm indicado a via de pós-capitalismo, diante do esgotamento do método de governo do planeta.  Francisco articulou um fórum para que os povos meditem sobre esta via, o Encontro Mundial dos Movimentos Populares, que já teve três edições. É digna de nota a evolução do pensamento papal ao longo dos três encontros, no diálogo com líderes de movimentos sociais de todo o planeta.

No primeiro encontro, em Roma, em outubro de 2014, Francisco foi taxativo: “esse sistema não se aguenta mais. Temos que mudá-lo, temos que voltar a levar a dignidade humana para o centro, e que, sobre esse pilar, se construam as estruturas sociais alternativas de que precisamos.” E colocou na agenda a propriedade comum do planeta, numa antecipação do que seria sua encíclica Laudato Sii, lançada em maio de 2015: “a criação não é uma propriedade da qual podemos dispor ao nosso gosto; muito menos é uma propriedade só de alguns, de poucos: a criação é um dom, é um presente, um dom maravilhoso que Deus nos deu para que cuidemos dele e o utilizemos em benefício de todos, sempre com respeito e gratidão.”

 

No segundo encontro, em Santa Cruz de la Sierra, em julho de 2015, o Papa afirmou que o capitalismo é uma “ditadura sutil” que precisa ser superado: “Queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas. Este sistema é insuportável: não o suportam os camponeses, não o suportam os trabalhadores, não o suportam as comunidades, não o suportam os povos….”. Finalmente, no terceiro, novamente em Roma, Francisco afirmou que é preciso “refundar as democracias que estão passando por uma verdadeira crise.”

Superar o sistema insuportável para os povos, tornar o planeta e seus bens propriedade, refundar as democracias. Parece uma proposta consistente de enfrentamento da onda de ódio. O que têm os movimentos sociais a dizer? Como reunir os povos para construir esta alternativa?

O 4º Encontro Mundial poderá ser um espaço inédito de elaboração de uma alternativa pós-capitalista. A preparação para ele começou com um inédito Encontro Mundial de Movimentos Populares – Regional EUA que está acontecendo entre 16 e 19 de fevereiro em Modesto (Califórnia), com a presença de 700 líderes de organizações sociais de 12 países. Na carta que enviou ao encontro (aqui), o Papa Francisco abordou diretamente a relação entre o capitalismo e a epidemia de ódio: “A gangrena de um sistema não se pode maquiar eternamente porque cedo ou tarde sente-se o cheiro ruim e, quando já não se pode negar, surge do mesmo poder que criou este estado de coisas a manipulação do medo, da insegurança, da raiva, e mesmo da justa indignação das pessoas que transferem a responsabilidade de todos os males a um ‘não próximo’”. Nascerá o novo que modifique no longo prazo a dinâmica das relações sociais, escapando da ditadura do ódio?

 

Há, na visão do Papa, inspirado em Jesus, uma relação entre a esfera social e a individual que não pode ser perdida, sob o risco de a utopia degenerar novamente numa dis-topia. No 2º encontro mundial, na Bolívia, Francisco abordou diretamente esta dimensão: “Sabemos, amargamente, que uma mudança de estruturas, que não seja acompanhada por uma conversão sincera das atitudes e do coração, acaba a longo ou curto prazo por burocratizar-se, corromper-se e sucumbir. Por isso gosto tanto da imagem do processo, onde a paixão por semear, por regar serenamente o que outros verão florescer, substitui a ansiedade de ocupar todos os espaços de poder disponíveis e de ver resultados imediatos. Cada um de nós é apenas uma parte de um todo complexo e diversificado interagindo no tempo: povos que lutam por uma afirmação, por um destino, por viver com dignidade, por ‘viver bem’.”

Encarar o ódio no diálogo-ação psicanalítico, no diálogo-ação da espiritualidade (para os que creem) e no diálogo-ação político/social é um projeto de vida. Complexo, paradoxal. Mas, talvez, o único capaz de superar a norma da vida para 1% e morte-em-vida para 99% engendrada pelo capitalismo.

[Mauro Lopes]

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[1] Chomsky, Noam. O lucro ou as pessoas. São Paulo: Bertrand Brasil, 2002, p. 25
[2] Agamben, Giorgio. Homo Sacer: o poder soberano e a vida nua I. 2ª reimpressão.  Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007, p. 133.
[3] Arendt, Hanna. Origens do Totalitarismo, Antissemitismo, Imperialismo, Totalitarismo. São Paulo: Companhia de Bolso, 2013, p. 242.
[4] Arendt, idem, p. 258.
[5] Agamben, Giorgio. Estado de Exceção. 2ª Edição. São Paulo: Boitempo, 2007, p. 13.
[6] Agamben, 2007, p. 144.
[7] Marx, Karl. Engels, Friedrich. O Manifesto Comunista. 4ª reimpressão. São Paulo: Boitempo, 2005. p. 54.

 

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